A pergunta que intitula esta análise — “O que a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, responsável por restaurar os movimentos de até seis pacientes paraplégicos, tem a ver com geopolítica?” — pode, à primeira vista, parecer um não sequitur. No entanto, uma investigação mais aprofundada revela uma intrincada teia onde avanços científicos de ponta se entrelaçam diretamente com as dinâmicas do poder global. A trajetória da professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não é apenas uma história de sucesso laboratorial; é um estudo de caso sobre como a ciência se torna um instrumento crucial na projeção internacional de um Estado no século XXI.
Para decifrar essa relação, é fundamental recorrer à clássica divisão das ferramentas de influência internacional: o hard power e o soft power. Enquanto o primeiro se baseia na força militar e na coerção econômica, o segundo, conceito popularizado por Joseph Nye, opera através da atração e da persuasão, moldando preferências por meio da cultura, dos valores e das conquistas tecnológicas e científicas de uma nação. É um equívoco, porém, considerar o soft power como uma ferramenta benigna. Sua aplicação é estratégica, constante e profundamente transformadora, capaz de reconfigurar hierarquias globais de forma tão decisiva quanto um conflito armado, ainda que por vias menos aparentes.
A história recente do Brasil oferece um exemplo paradigmático desse processo. Desde os anos 1930, o país foi sistematicamente exposto ao que o historiador Frank Ninkovich denominou “American Way of Life” (Estilo de Vida Americano). Mais do que um produto cultural, tratava-se de um projeto geopolítico deliberado da Guerra Fria, um braço da política externa de Washington para conter a influência comunista nas Américas. A inundação de filmes de Hollywood — muitos dos quais nem mesmo visavam lucro direto —, a disseminação da música pop e a inserção de instituições filantrópicas como o Lions Club, o Rotary Club e o Kiwanis serviram como vetores para a exportação de um pacote ideológico específico: valores de empreendedorismo individual, filantropia capitalista e um imaginário de progresso material inextricavelmente ligado ao modelo societal norte-americano. A mensagem, ainda que subliminar, era clara e unidirecional: o futuro tinha um rosto, um sotaque e um endereço, e as demais nações deveriam aspirar a ele.

Nesse contexto, a medicina e a biotecnologia emergem como domínios de soft power por excelência. Em um mundo globalizado, a capacidade de um país de gerar inovações que preservam a vida, restauram a saúde e garantem a produtividade de populações confere a ele uma autoridade moral e uma influência prática formidáveis. Controlar tecnologias médicas de ponta equivale a deter uma forma contemporânea de soberania, na qual se decide, direta ou indiretamente, quem tem acesso a tratamentos vitais e quem fica à margem. Essa realidade opera em franco contraste com o ideal westfaliano clássico, que equiparava soberania quase exclusivamente ao hard power e à inviolabilidade das fronteiras. Hoje, a verdadeira autonomia de um Estado passa, cada vez mais, por sua capacidade de produzir conhecimento científico complexo e de reter seus benefícios econômicos e estratégicos.
É precisamente nesse cenário que o trabalho da Dra. Tatiana Sampaio adquire sua plena dimensão geopolítica. Coordenando o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ, sua equipe realizou uma descoberta transformadora: a identificação e caracterização da polilaminina. Trata-se de uma forma polimerizada da proteína laminina, que compõe a matriz extracelular, e que apresenta propriedades bioquímicas semelhantes às encontradas no ambiente embrionário — fase na qual o sistema nervoso possui sua máxima capacidade de regeneração. Aplicada a lesões da medula espinhal, a polilaminina atua em múltiplas frentes: favorece a regeneração axonal (o recrescimento das fibras nervosas lesadas), reduz processos inflamatórios locais e estimula a reorganização do microambiente celular. Os resultados, ainda em estudos clínicos preliminares, são historicamente promissores: seis pacientes com paraplegia crônica voltaram a mover segmentos do corpo antes considerados permanentemente paralisados.
O impacto dessa conquista transcende, em muito, o âmbito clínico individual. Em primeiro lugar, ela reposiciona o Brasil no mapa global da ciência de ponta, gerando um “brilho científico” comparável ao do sequenciamento genômico do SARS-CoV-2 realizado em tempo recorde pela pesquisadora Jaqueline Goes de Jesus. Em segundo lugar, a geração de patentes de alta complexidade em torno da polilaminina representa um ativo estratégico. Ela coloca o país não como mero consumidor, mas como produtor e potencial exportador de tecnologia médica pioneira, um campo tradicionalmente dominado por poucas nações. Por fim, os benefícios sociais projetados são enormes: a possibilidade de restaurar autonomia a pessoas com paralisia implica numa drástica redução de custos com cuidados de longa duração e terapias paliativas, liberando recursos e revitalizando o capital humano.
Portanto, a resposta à pergunta inicial torna-se evidente. Tatiana Sampaio e a polilaminina estão na vanguarda da construção do soft power brasileiro. Seu trabalho demonstra que a soberania nacional no século XXI é também construída em laboratórios de pesquisa. Cada axão regenerado, cada paciente que recupera um movimento, representa não apenas uma vitória da medicina, mas um incremento concreto na capacidade do Brasil de projetar influência, atrair parcerias e afirmar sua autonomia tecnológica. Em um mundo onde a informação, a saúde e a inovação são as novas moedas do poder, investir em cientistas como Tatiana Sampaio é, em última análise, investir na própria independência e relevância geopolítica da nação. Portanto, a medicina mostra-se não apenas uma arte de curar, mas um componente estratégico do soft power. Na geopolítica do século XXI, exercer o soft power, em si, é proteger a soberania.
