Os desafios do novo governo de Donald Trump para os BRICS+ e a diplomacia Brasileira

O governo Trump ameaça o BRICS+ com tarifas e disputa recursos sul-americanos, desafiando o Brasil a usar sua diplomacia e fortalecer defesas para proteger sua soberania.

Com a recente mudança no governo dos Estados Unidos da América, as expectativas em relação às relações internacionais são amplas e diversificadas, particularmente no tocante ao BRICS+, que representa uma das maiores ameaças comerciais ao futuro governo de Donald Trump. A dinâmica desse grupo, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e alguns novos nomes, ganha ainda mais relevância diante das mudanças geopolíticas em curso refletida na expansão da influência chinesa e da relevância dos países em desenvolvimento no cenário internacional.

A desdolarização e a crescente influência chinesa figuram como temas centrais das dinâmicas do BRICS+. O anúncio de uma possível moeda paralela ao dólar e os avanços da “Nova Rota da Seda” (Belt and Road Initiative) são indícios de um reposicionamento econômico global. A criação de uma moeda que mitigue a dependência do dólar poderia remodelar as transações comerciais e as estruturas de poder financeiro, especialmente em regiões em desenvolvimento. Além disso, as ambições do BRICS+ não se limitam ao campo econômico: o grupo também tem intensificado sua cooperação em segurança e defesa, aspectos cruciais para consolidar sua autonomia no cenário internacional.

O BRICS+ destaca-se pela sua capacidade militar coletiva. Juntos, os cinco países contam com mais de seis milhões de militares ativos, comparados aos aproximadamente dois milhões dos Estados Unidos. Embora este número não considere a influência exercida pelos EUA através da OTAN e outros aliados, a disparidade numérica reflete um potencial significativo de dissuasão. No entanto, a verdadeira preocupação não reside apenas no contingente militar, mas também na transferência de tecnologias estratégicas entre os membros do BRICS+.

A transferência de tecnologias no âmbito do BRICS+ ocorre prioritariamente em áreas estratégicas, com o objetivo de promover o desenvolvimento conjunto e fortalecer a cooperação entre essas economias emergentes. Algumas das principais áreas de transferência e colaboração tecnológica incluem energia nuclear, energia renováveis, hidrogênio verde, satélites e observação da terra, exploração espacial, indústria de armamento, cibersegurança, infraestrutura 5G, inovação em IA e Big Data, entre outros.

A ascensão do BRICS+ como uma coalizão de economias emergentes com significativo peso geopolítico e econômico representa um desafio inédito à hegemonia norte-americana. Esse cenário requer uma análise cuidadosa sobre como o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump em seu novo mandato, reagirá tanto em termos de soft power quanto de hard power. Em seus poucos pronunciamentos oficiais sobre o BRICS+, Trump destacou a possibilidade de impor uma tarifa de 100% sobre produtos oriundos de países que adotarem a nova moeda proposta pelo bloco.

Essa medida, caso implementada, teria implicações econômicas severas para diversas nações, incluindo o Brasil. Os setores brasileiros mais vulneráveis à aplicação dessas tarifas incluem o de máquinas e equipamentos, combustíveis minerais e a exportação de animais vivos, que, em conjunto, movimentaram cerca de USD 67 bilhões em 2022, de acordo com dados do Ministério da Fazenda. A magnitude desse impacto reforça a necessidade de uma estratégia diplomática robusta para mitigar os efeitos de um potencial aumento do protecionismo norte-americano.

No entanto, é da China para os Estados Unidos que as consequências de tais restrições tarifárias seriam ainda mais profundas, particularmente no comércio de insumos essenciais para tecnologias estratégicas. Produtos como semicondutores, placas de circuitos impressos e componentes de baterias constituem uma parcela crucial das exportações chinesas para o mercado norte-americano. O destaque recai sobre os componentes de baterias, devido ao seu papel central na cadeia de suprimentos de veículos elétricos e dispositivos tecnológicos.

Este ponto torna-se ainda mais sensível com a recente nomeação de Elon Musk como Chefe do “Departamento de Eficiência” dos EUA. A posição estratégica de Musk, cujo conglomerado de empresas, como a Tesla, depende diretamente do fornecimento de baterias de alta performance, enfatiza a relevância desse comércio para a economia e segurança energética norte-americanas.

Ademais, a potencial adoção da moeda do BRICS+ poderia acelerar a desdolarização em mercados estratégicos, aumentando a pressão sobre o sistema financeiro internacional liderado pelos EUA. Essa dinâmica introduz um elemento de complexidade ao cálculo geopolítico, uma vez que a competição entre as principais potências econômicas transcende o comércio direto, estendendo-se à disputa por influência em instituições globais e no estabelecimento de padrões econômicos alternativos.

A resposta norte-americana a essa ameaça dependerá não apenas de decisões unilaterais de política comercial, mas também da capacidade do governo em mobilizar alianças estratégicas e fortalecer suas bases de soft power. A postura assertiva do BRICS+ sugere um reposicionamento do poder global, no qual a busca por maior autonomia econômica por parte das nações em desenvolvimento desafia a ordem estabelecida, introduzindo novas variáveis à política internacional contemporânea.

As crescentes demandas globais por recursos estratégicos, como os componentes essenciais para a produção de baterias, têm alterado significativamente o panorama geopolítico internacional. Entre as iniciativas mais evidentes, destaca-se a busca dos Estados Unidos por parceiros alternativos para suprir essas necessidades, o que inclui uma aproximação com países com baixo peso geopolítico e limitada capacidade de defesa, como a Bolívia. Essa estratégia visa garantir acesso a recursos fundamentais, como o lítio, amplamente encontrado no Salar de Uyuni, que concentra uma das maiores reservas mundiais do mineral.

A Bolívia, apesar de suas limitações em termos de infraestrutura de defesa, possui uma relevância estratégica significativa. Além de abrigar 75% de seu território na Floresta Amazônica, uma área de aproximadamente 824 mil quilômetros quadrados, o país compartilha uma extensa fronteira de 3.423 quilômetros com o Brasil, o que o torna um ponto sensível para as dinâmicas de segurança e soberania regional.

No Brasil, a proteção da Amazônia tem ganhado atenção crescente nas últimas décadas, refletida em avanços significativos em tecnologia militar e espacial. Projetos como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) e o uso de satélites para vigilância do território têm contribuído para ampliar a capacidade de defesa da região. Entretanto, tais esforços ainda estão aquém das necessidades impostas pela vastidão do território amazônico e pela pressão de atores internacionais interessados em explorar recursos naturais.

A aproximação dos EUA com a Bolívia representa um desafio geopolítico para o Brasil. A cooperação entre essas duas nações, particularmente no contexto do lítio e outros recursos estratégicos, pode intensificar a presença de interesses externos na região amazônica, aumentando os riscos de tensões políticas e econômicas no continente sul-americano.

Embora o Brasil enfrente limitações em seu poder de defesa, sua tradição diplomática robusta é um ativo estratégico. Desde o período da independência, com figuras como José Bonifácio de Andrada e Silva e Felisberto Caldeira Brant (Marquês de Barbacena), o Brasil tem demonstrado habilidade em negociar acordos que preservem seus interesses soberanos. O reconhecimento da independência brasileira por parte de Portugal, mediado pelo Reino Unido, é um exemplo histórico de como a diplomacia brasileira soube superar adversidades estruturais e econômicas para alcançar resultados favoráveis.

Na atualidade, o corpo diplomático brasileiro continua a desempenhar um papel crucial na negociação de acordos internacionais. Organizações como o Itamaraty têm acumulado vitórias em fóruns multilaterais, promovendo a cooperação regional e defendendo os interesses do Brasil em questões ambientais e econômicas. Essa capacidade será fundamental para enfrentar os desafios decorrentes da intensificação da presença de potências globais na Amazônia.

A exploração de recursos estratégicos na Amazônia, tanto na Bolívia quanto no Brasil, está inserida em um contexto de disputa geopolítica que exige um equilíbrio delicado entre desenvolvimento econômico, soberania territorial e preservação ambiental. A diplomacia brasileira, respaldada por sua história de negociações eficazes, será indispensável para minimizar os impactos de interesses externos e garantir que a Amazônia continue sendo um patrimônio estratégico da América do Sul.

Entretanto, é crucial que o Brasil intensifique investimentos em tecnologia e infraestrutura de defesa, reforçando sua presença na região amazônica. Além disso, a cooperação regional com países como a Bolívia pode ser uma alternativa viável para reduzir a vulnerabilidade comum frente a potências estrangeiras, consolidando a soberania sul-americana sobre seus recursos naturais.

A ascensão do BRICS+ como um bloco estratégico de economias emergentes e a complexidade das dinâmicas geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Donald Trump, apontam para um reposicionamento significativo no equilíbrio de poder global. As iniciativas do BRICS+, como a desdolarização, o desenvolvimento de tecnologias compartilhadas e o fortalecimento da cooperação em defesa e segurança, refletem a busca por maior autonomia e protagonismo no cenário internacional.

Entretanto, a resposta dos Estados Unidos a essas mudanças, com medidas protecionistas e estratégias voltadas à manutenção de sua hegemonia, demonstra o desafio que o BRICS+ representa para a ordem estabelecida. A aproximação entre os EUA e países geograficamente estratégicos, como a Bolívia, e o foco em recursos essenciais, como o lítio, destacam a importância de uma abordagem geopolítica assertiva e integrada por parte das nações sul-americanas.

O Brasil, em particular, encontra-se em uma posição singular, sendo tanto uma potência regional quanto um membro-chave do BRICS+. A combinação de seus recursos naturais, capacidade tecnológica em áreas estratégicas e tradição diplomática robusta pode consolidar sua relevância como interlocutor global. No entanto, para maximizar seu potencial e proteger seus interesses, o Brasil precisará enfrentar desafios estruturais, como a modernização de suas capacidades de defesa e a promoção de maior integração regional para resistir às pressões externas.

Ademais, a busca por cooperação no âmbito do BRICS+ oferece uma oportunidade única para o fortalecimento de economias emergentes em meio às disputas das grandes potências. A transferência de tecnologias, o desenvolvimento de infraestruturas críticas e a colaboração em áreas como cibersegurança, energia renovável e inovação digital são caminhos promissores para impulsionar o desenvolvimento sustentável e ampliar a competitividade global dos países-membros.

Em suma, o futuro das relações internacionais nesse novo cenário dependerá de estratégias diplomáticas e econômicas que conciliem interesses nacionais e coletivos, enquanto enfrentam os desafios impostos por um ambiente global cada vez mais multipolar. O BRICS+ apresenta-se como uma força de transformação, mas a eficácia de sua atuação dependerá de sua capacidade de adaptação às novas realidades e de articulação perante as pressões geopolíticas.

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