Este artigo examina o futuro político e econômico da Venezuela através de uma análise comparativa das intervenções históricas dos Estados Unidos no Panamá, no Iraque e no Afeganistão. Utilizando uma abordagem histórica e crítica, o estudo argumenta que a trajetória venezuelana pode ser projetada a partir de padrões observados em intervenções passadas, caracterizadas pela violação da soberania nacional e pela subordinação a interesses geopolíticos e econômicos norte-americanos. Através dos casos de Manuel Noriega, Saddam Hussein e Osama bin Laden, o artigo delineia um padrão de ação que, aplicado ao contexto venezuelano – detentor das maiores reservas de petróleo do mundo –, sugere um cenário futuro de instabilidade institucional, conflito e retrocesso socioeconômico.
O que será do futuro da Venezuela se olharmos para o retrovisor das ações dos Estados Unidos?
Diferente do que a imprensa em muitos países vem alegando sobre os Estados Unidos terem aberto um precedente perigoso, na verdade, uma a intervenção na Venezuela representou só mais um país profanado em uma lista extensa de intervenções dos Estados Unidos. Não precisamos ir muito longe para coletar exemplos do que podemos esperar para o futuro daquele país.
Caso 1: Manuel Noriega e o Panamá (1989)
Em 1989, a mando do presidente George H. W. Bush, Manuel Noriega foi capturado pelos Estados Unidos durante a Operação Justa Causa, que invadiu o território panamenho e levou seu líder para ser julgado na Flórida, pelos crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Como podemos observar, os Estados Unidos nem sequer se dão ao trabalho de criar um motivo substantivamente diferente para ferir a soberania de países menores.
Naquela ocasião, os Estados Unidos não estavam atrás apenas de petróleo, minerais ou terras raras. O Canal do Panamá é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, com um enorme valor econômico e militar. Só no ano fiscal de 2023, registraram-se aproximadamente 14.000 trânsitos de navios e mais de 511 milhões de toneladas PC/UMS que transitaram por lá. Por que ele é tão importante? Um navio que saísse dos Estados Unidos em direção à Ásia teria que cruzar a América do Sul inteira e passar pelo Cabo Horn, o que implica em riscos náuticos enormes para as embarcações e tripulação, assim como custos exorbitantes. Um navio saindo da costa leste dos Estados Unidos, dos portos de Nova Iorque ou Nova Jersey, percorreria cerca de 27.000 km, a um custo estimado de 2,1 milhões de dólares em combustível, e levaria aproximadamente 45 dias para chegar ao porto de Xangai, na China.
Já pelo Canal do Panamá, o mesmo navio percorreria cerca de 19.000 km, a um custo estimado de 1,7 milhão de dólares em combustível, sem incluir o pedágio. Essa rota vital gerou o interesse estratégico dos Estados Unidos em assegurar seu controle, justificando a ação contra um presidente que, segundo o governo de George H. W. Bush, permitia que potências consideradas adversárias, como a extinta União Soviética, utilizassem a via de maneira que ameaçava os interesses de segurança nacional norte-americanos.
Caso 2: Saddam Hussein e o Iraque (1980-1990)
Este caso merece uma atenção especial, visto que Saddam Hussein foi um parceiro estratégico dos Estados Unidos no Oriente Médio durante a década de 1980. Até 1990, o governo de Saddam Hussein recebia dos Estados Unidos crédito agrícola, que era desviado para a compra de equipamentos bélicos, inteligência militar – incluindo o uso de imagens de satélites espiões norte-americanos –, e recursos e componentes para a criação de armas químicas e biológicas.

É importante destacar um tópico à parte sobre o uso de armas químicas. Em 1983, foram registrados os primeiros usos de armas químicas por Saddam no território do Curdistão contra posições iranianas. Desde então, mais de 50 ataques químicos subsequentes foram registrados contra iranianos. Há uma estimativa de que entre 50.000 e 100.000 iranianos foram intoxicados, resultando em milhares de mortes e sequelas permanentes (cegueira, problemas pulmonares e neurológicos).
O ataque mais famoso ocorreu em Halabja, entre 16 e 17 de março de 1988. Um ataque com armas que utilizaram gás mostarda e agentes neurotóxicos, durou cerca de 5 horas, matando imediatamente cerca de 3.200 a 5.000 civis, incluindo mulheres e crianças, e deixando mais de 7.000 a 12.000 feridos com danos permanentes.

O rompimento definitivo com Saddam Hussein ocorreu em 2 de agosto de 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. Erra muito quem acredita que os Estados Unidos iniciaram um conflito com o Iraque apenas para salvar o Kuwait dos ataques. O que de fato ocorreu foi uma avaliação de que o Iraque, ao anexar o Kuwait, controlaria cerca de 20% das reservas de petróleo mundial, elevando o risco de uma ameaça futura à Arábia Saudita. A história demonstra que, onde há petróleo, há um interesse declarado dos Estados Unidos em promover a “democracia”, mesmo que os métodos empregados raramente sejam democráticos.
Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque. Saddam Hussein foi capturado em dezembro daquele ano, julgado por um tribunal iraquiano estabelecido sob ocupação, e sentenciado à morte, sendo executado em 2006.
Caso 3: Osama bin Laden e o Afeganistão (1979)
Com a invasão soviética do Afeganistão em 1979 e o descontentamento de Osama bin Laden com os “infiéis comunistas”, os governos dos Estados Unidos, sob as presidências de Jimmy Carter e depois de Ronald Reagan, viram em bin Laden e nos mujahidin afegãos uma oportunidade de enfraquecer a União Soviética. Para isso, a Operação Ciclone (Cyclone) da CIA investiu mais de 3 bilhões de dólares para armar e financiar a resistência, incluindo a atuação de redes associadas a bin Laden como um ponto estratégico para organizar a distribuição de recursos, controlar armamentos e recrutar guerrilheiros.
Embora o financiamento não tenha sido feito de maneira direta do governo dos Estados Unidos para Osama bin Laden pessoalmente, os recursos eram canalizados através da ISI, o serviço secreto paquistanês, que por sua vez os repassava para os combatentes, incluindo os árabes afiliados a bin Laden. Além do investimento econômico, os Estados Unidos disponibilizaram armamentos, como os conhecidos fuzis AK-47 e lançadores mísseis Stinger, explosivos e treinamento militar para os guerrilheiros.
A ironia histórica reside no fato de que as redes islâmicas militantes, financiadas e fortalecidas indiretamente pelos Estados Unidos, posteriormente se voltaram contra o Ocidente. Quando os soviéticos se retiraram em 1989, os mujahidin, incluindo figuras como bin Laden, deixaram de ser um interesse estratégico imediato para os Estados Unidos. Anos mais tarde, após os ataques de 11 de setembro de 2001, Osama bin Laden, então líder da Al-Qaeda, tornou-se o inimigo número um. Em 2011, forças especiais (Navy SEALs) dos Estados Unidos invadiram um complexo no Paquistão e o executaram.
Padrão Histórico e Projeção para a Venezuela
Podemos analisar diversos outros momentos da história em que a captura, o sequestro e o assassinato de figuras de poder realizadas pelos Estados Unidos ocorreram sob o pretexto de acabar com o terrorismo ou com os cartéis de drogas. A história sugere que tudo sempre fez parte de um grande jogo geopolítico: se o militante for contra as potências inimigas dos Estados Unidos, ele poderá receber financiamento, armas e treinamento militar; se a ameaça for a um regime que controla recursos estratégicos, os Estados Unidos intervirão sob a bandeira da democracia.
Hoje, a Venezuela se encontra como o país detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. A história nos conta que, frequentemente, quando um país possui grandes reservas de petróleo e adota uma postura contrária aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos, seus líderes são alvo de ações que ferem a soberania nacional e o direito internacional. Em todos os casos analisados, os cenários que se sucedem a esses eventos são de instabilidade regional, com a criação de um ambiente propício para guerras civis, para que grupos paramilitares se autodeclarem líderes e oprimam a população. Os Estados Unidos não demonstram, historicamente, um interesse primordial em zelar pela paz e pela estabilidade duradoura do país intervencionado, mas sim em assegurar o domínio ou o acesso à exploração de recursos estratégicos.
Se olharmos para o retrovisor da história, os resultados da interferência dos Estados Unidos raramente conduzem ao desenvolvimento sustentável. No Vietnã, após a retirada norte-americana (1975), o país mergulhou em profunda pobreza e isolamento geopolítico, evoluindo posteriormente para um regime autoritário de partido único que, apesar do recente crescimento econômico, mantém um controle rígido sobre a mídia e a sociedade, sem alternância democrática de poder.
No Afeganistão (2001-2021), o resultado de 20 anos de ocupação, uma das intervenções mais caras da história dos Estados Unidos, foi um país entregue ao colapso humanitário, à pobreza extrema e à anulação dos direitos das mulheres com o retorno do Talibã ao poder.
O Panamá, talvez o melhor dos casos analisados, possui hoje um sistema democrático funcional com alternância de poder desde 1990. No entanto, ainda enfrenta problemas crônicos de corrupção estatal, alta desigualdade econômica e social, embora com instituições consideradas resilientes.
Análise
Se aprendemos algo com a história, é que há uma chance ínfima de um país que tem sua soberania ferida por uma intervenção dos Estados Unidos experimentar avanços econômicos e sociais robustos e inclusivos. Pelo contrário, o risco de guerra civil ou conflito interno aumenta exponencialmente. Regimes autoritários, muitas vezes alinhados aos interesses estratégicos de Washington, tendem a emergir ou se consolidar, frequentemente levando grandes parcelas da população a índices de pobreza extrema e a uma crise humanitária.
O mundo hoje olha para a Venezuela com preocupação. Profissionais de relações internacionais, geopolítica e direito internacional esperam, idealisticamente, que a população venezuelana possa usufruir de um governo democrático, de respeito às instituições e que não ofereça o país aos caprichos de políticas externas voláteis, como as presente na figuras de Donald Trump. No entanto, infelizmente, a história recente nos ensina a não esperar por esse desfecho quando os interesses estratégicos e os recursos energéticos estão em jogo. O padrão observado no retrovisor sugere um caminho muito mais árduo e turbulento para o futuro da Venezuela.
