A Revolução Islâmica de 1979 constitui um ponto de inflexão histórico que resultou na derrocada da monarquia Pahlavi — regime alinhado aos interesses geopolíticos ocidentais, inclusive durante a administração do presidente norte-americano Jimmy Carter — e na instauração de um novo ordenamento político-religioso. Esse processo desencadeou uma reconfiguração radical das instituições estatais, dando origem a um modelo híbrido singular. Nele, coexistem as estruturas formais republicanas, incluindo eleições presidenciais e legislativas, que operam sob a soberania final de um establishment clerical xiita não eletivo. Consequentemente, os processos eleitorais, embora realizados periodicamente, possuem uma capacidade limitada de expressar a vontade política popular de forma autônoma, uma vez que o núcleo decisório de poder permanece alheio ao escrutínio eleitoral.
A Arquitetura do Poder: A Centralidade do Líder Supremo e suas Implicações
A engenharia política interna do Irã caracteriza-se por uma complexidade ímpar, na qual atores eleitos e não eleitos — incluindo clérigos, oficiais militares do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e civis — interagem dentro de limites rigidamente definidos pela autoridade suprema. O ápice deste sistema é ocupado pelo Líder Supremo (atualmente o Aiatolá Ali Khamenei), cujas prerrogativas, consagradas no Artigo 110 da Constituição de 1989, abrangem a definição das políticas de Estado, o comando supremo das forças armadas, a declaração de guerra e paz, e a supervisão geral dos três poderes. Esta supremacia é institucionalizada através de uma rede de representantes pessoais inseridos em todos os órgãos estatais estratégicos, desde o Judiciário até os meios de comunicação públicos.
Esse arcabouço, que combina controle ideológico interno com apoio a proxies regionais, correlaciona-se com a posição consistentemente elevada do Irã no Índice Global de Terrorismo (GTI). Conforme dados do Institute for Economics and Peace (IEP) para 2024, o país registrou uma pontuação de 6,16 em uma escala de 0 a 10, indicativo de um impacto significativo em termos de incidentes e vítimas associadas à violência política — uma classificação que o Estado iraniano contesta, interpretando-a como um instrumento de demonização geopolítica.
A Conjuntura de Protestos de 2024-2026: Raízes Socioeconômicas e Simbolismo Histórico
A recente onda de agitação civil, iniciada no final de 2024, emerge em um contexto de crise econômica estrutural, exacerbada por sanções internacionais e má gestão, resultando em hiperinflação, desemprego e profunda desigualdade. Do ponto de vista sociológico, é notável que o epicentro dos distúrbios tenha sido os bazaris, os comerciantes dos mercados tradicionais que representam um segmento histórico da economia e da identidade nacional. Este fato carrega um peso simbólico considerável, dado que o mesmo grupo forneceu suporte logístico e financeiro decisivo para o triunfo da Revolução de 1979. Portanto, sua mobilização atual contra o establishment teocrático sinaliza uma potencial fissura em um dos pilares sociais tradicionais do regime, elevando o nível de risco político interno a um patamar crítico.
Mecanismos de Contenção Estatal: Isolamento Informacional e Repressão
A resposta estatal aos protestos seguiu um padrão documentado de controle social, porém com uma intensificação marcante. Em 8 de janeiro de 2026, as autoridades implementaram um apagão digital nacional, suspendendo o acesso à internet e às telecomunicações. Esta medida teve um duplo objetivo operacional: impedir a coordenação dos manifestantes e isolar o cenário interno do escrutínio e solidariedade internacional. Apesar do bloqueio, relatórios de organizações de direitos humanos, corroborados por um comunicado de “grande preocupação” emitido pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos em 13 de janeiro de 2026, descrevem uma repressão violenta.
As estimativas quantitativas da repressão variam devido à censura, mas fontes independentes apontam para um balanço mínimo de 500 fatalidades, com algumas projeções atingindo a marca de 2.000 mortos. O número de feridos e detidos supera 10.600 indivíduos, sobrecarregando o sistema prisional e hospitalar. Um marco na escalada autoritária foi a execução, anunciada em janeiro de 2026, de um manifestante condenado sob acusações relacionadas aos protestos — um ato interpretado como uma tática de terror estatal para coibir a dissidência.
Dimensões Geopolíticas: A Interdependência Regional e o Isolamento Sancionatório
A estabilidade do regime iraniano é um fator de interesse estratégico para atores estatais-chave no cenário internacional. Dados do Banco Central do Irã indicam que aproximadamente 40% das exportações de petróleo do país destinam-se à China, consolidando uma relação de interdependência econômica. Paralelamente, a cooperação estratégico-militar com a Rússia, incluindo exercícios navais conjuntos no Estreito de Ormuz, aprofunda um eixo de resistência à hegemonia ocidental. Esta inserção geopolítica contrasta com um extenso regime de sanções multilaterais. O arsenal de restrições econômicas, liderado pelos Estados Unidos e acompanhado pela União Europeia, inclui um embargo quase total ao setor energético, a exclusão de instituições financeiras do sistema SWIFT e a designação de entidades (como o IRGC) como organizações terroristas. Adicionalmente, instrumentos legais como a Lei Global Magnitsky dos EUA são empregados para sancionar indivíduos específicos por violações graves de direitos humanos, vinculando a repressão doméstica a consequências pessoais no exterior.
Análise: Um Estado em Tensão Estrutural
O Irã contemporâneo encontra-se em um estado de tensão estrutural aguda, onde a contestação civil massiva confronta um aparato estatal altamente centralizado e repressivo. A analogia histórica com os eventos pré-revolucionários de 1979 é inevitável, sugerindo um potencial limiar de transformação sistêmica. No entanto, prognósticos sobre uma iminente transição democrática ou a queda do modelo teocrático são prematuros. A resiliência do regime, lastreada no controle coercitivo e no apoio de potências revisionistas, não pode ser subestimada.
O desfecho desta crise prolongada será determinado pela interação de três variáveis principais: 1) a capacidade de mobilização sustentada e de resistência não-violenta da sociedade civil iraniana; 2) o cálculo estratégico e o possível intervencionismo de atores regionais e globais com interesses no país; e 3) a evolução da crise econômica interna como catalisador do mal-estar social. Portanto, mais do que um episódio de instabilidade, a atual conjuntura representa um teste estressante à viabilidade de longo prazo do modelo de República Islâmica, cujos desdobramentos repercutirão profundamente na ordem regional do Oriente Médio e nas dinâmicas da política internacional.

Acrescentaria uma problematização do conceito de Teocracia e apontar seus limites teóricos como conceito histórico e aplicabilidade no caso da República do Irã