A Farsa do ‘Conselho de Paz’: Como Trump Cria o Caos Para Vender a Ordem

MIGA

O mais recente espetáculo da política externa norte-americana acaba de ser mostrada ao mundo: Donald Trump lança seu “Conselho de Paz”, uma tentativa patética de resolver conflitos que ele próprio inflamou com o entusiasmo de um piromaníaco aposentado. O método não é novo; é a velha cartilha do gangsterismo político: criar o incêndio, oferecer-se para apagá-lo e cobrar pela extinção. Em Wall Street, os operadores, com seu humor ácido e preciso, já cunharam o acrônimo perfeito: TACO (Trump Always Chickens Out). O roteiro é sempre o mesmo: uma ameaça absurda, um discurso que beira o delírio, seguido pela recua covarde e mesquinho quando a perturbação gerada mostra suas garras reais. É a governança como um jogo de apostas, onde a moeda de troca é a estabilidade global.

Para compreender essa máquina de caos, não é necessário um doutorado. Basta observar a Teoria do Caos aplicada às Relações Internacionais: um único ator, imprevisível e emocionalmente infantilizado, pode gerar efeitos desproporcionais e catastróficos. O slogan MAGA (Make America Great Again) revela-se, dia após dia, uma fraude colossal. Não se trata de grandeza nacional, mas de uma operação de saque. A “grandeza” é a de um mercado financeiro volátil, manipulado para que os insiders como o próprio Trump enriqueçam com a turbulência. Enquanto a economia doméstica desmonta—com o dólar cambaleante, desemprego em alta e inflação corroendo o poder de compra—a fortuna pessoal do 45º (e agora 47º) presidente quase duplicou, saltando de US$ 3,9 bilhões em 2024 para obscenos US$ 7,3 bilhões em 2025. Talvez seu novo slogan deva ser MIGA (Make I Great Again), onde o “I” não é o pronome inglês, mas o Ich freudiano, o Ego insaciável que transforma a nação num palco para seu autorretrato grandioso.

O projeto de “grandeza”, entretanto, tem um lado sombrio e familiar. A atuação do ICE (Immigration and Customs Enforcement) já não guarda qualquer véu democrático. Opera com a lógica brutal de uma polícia política, evocando fantasmas históricos que julgávamos exorcizados. Sua missão, disfarçada de legalidade, é uma “limpeza” étnico-cultural, uma caça às bruxas onde não há distinção entre cidadão e estrangeiro, apenas entre o obediente e o “indesejável”. A guerra civil de baixa intensidade varre o país, minimizada pela mídia tradicional, mas irrefutável nos milhões que vão às ruas. A repressão é aberta, descarada, abençoada pela Casa Branca. Nem a prisão de uma criança como Liam Conejo Ramos, de 5 anos, em Minneapolis, foi capaz de comover a máquina sistêmica de violência. É a banalidade do mal em uniforme tático.

Enquanto isso, o mundo assiste, aprende e se reorganiza. A lição foi dura, mas clara: os Estados Unidos, sob Trump, são um parceiro irremediavelmente falho. A Europa, vítima de seus insultos e taxas irracionais, entendeu que deve defender-se por si mesma. As guerras comerciais autodestrutivas lançaram as Américas e a União Europeia aos pés da China. No palco global, Trump promoveu o maior isolamento voluntário desde o entre-guerras. O país que é o segundo maior poluidor do mundo, lançando cerca de 6,0 GtCO2e anualmente na atmosfera, tornou-se um pária ambiental, abandonando todos os acordos de mitigação climática. Não é coincidência que, no mesmo período, a revista Nature Climate Change anuncie a ultrapassagem do limite de 1.5°C do Acordo de Paris e a entrada em um cenário irreversível. É a herança mais vil: a condenação das futuras gerações ao sacrifício no altar do lucro imediato e da negação obscurantista.

Sua busca por um Prêmio Nobel da Paz é a piada de mais mau gosto do século. A realidade o premiou, de fato, com o título de pior presidente da história dos Estados Unidos, conforme atestado pelo Presidential Greatness Project. Suas ações têm sido “too much” até para seus apoiadores mais cínicos—um lampejo de esperança em um ano eleitoral. É improvável que vença em 2026, e ele sabe. O que resta, então? A pilhagem final. A contagem regressiva para extrair o último dólar do caos.

Independentemente de onde você esteja, guarde esta verdade: sua geração e as que virão pagarão a conta—climática, econômica, geopolítica—dos caprichos de um homem de 78 anos que, montado em uma fortuna impossível de gastar (nem que vivesse até os 100 anos desperdiçando um milhão por dia), decidiu que o mundo seria seu brinquedo quebrado.

Análise: : O Preço do Espetáculo

Ao final deste desfile de horrores políticos, resta uma contabilidade simples e devastadora. O projeto Trump não foi um desvio de rota na história americana; foi uma pressão-teste deliberada e sádica aos alicerces da democracia liberal, do sistema internacional e da sanidade coletiva. E, como todo teste de resistência aplicado a um organismo doente, ele expôs fraturas que talvez nunca sejam totalmente soldadas.

A grande tragédia não reside apenas nos atos do homem—na truculência do ICE, no vandalismo ambiental, no assalto ao erário disfarçado de política econômica. A tragédia perene está na normalização do abismo. Cada recuo tático chamado de “TACO”, cada nova excrescência do ego batizada de “MIGA”, cada dia em que a barbárie é tratada como mera “política controversa”, representa uma vitória do cinismo sobre a razão, do espetáculo sobre a substância.

Trump não criou as divisões que explorou, mas as armou com dinamite. Não inventou a ganança de Wall Street, mas a coroou como filosofia de Estado. Não foi o primeiro político a mentir, mas foi o que ergueu a falsidade à categoria de princípio ontológico, onde fatos são obstáculos e a realidade, um adversário a ser subjugado pela narrativa. O sucesso dessa operação—medido em bilhões para seu clã e em caos para sua nação—será seu legado mais duradouro: a prova de que o pior instinto pode ser, sim, um modelo de negócios viável e um projeto político galvanizador.

O “Conselho de Paz” é o epítome perfeito dessa era: um simulacro vazio, uma cortina de fumaça para distrair do incêndio. Enquanto o mundo, pragmático e assustado, se reorganiza em torno de novas alianças e tenta reparar os danos multilaterais, os Estados Unidos de Trump consomem-se em uma guerra civil de baixa intensidade e em uma crise de identidade existencial. A pergunta que fica não é se ele perderá ou ganhará a próxima eleição—é se o país que ele ajudou a desfigurar conseguirá, alguma vez, recuperar o rosto.

O custo final, contudo, será pago em uma moeda universal e implacável: tempo. Tempo perdido na luta contra a catástrofe climática. Tempo desperdiçado na reconstrução de confianças internacionais dilapidadas. Tempo que as futuras gerações—aqueles que herdarão um mundo mais quente, mais dividido e mais cínico—não terão para gastar. Tudo isso, para alimentar o Ich insaciável de um homem que, no fim das contas, não passará de uma nota de rodapé rancorosa e grotesca na história, mas cujo rastro de destruição figurará em negrito nos capítulos mais sombrios do nosso século.

O espetáculo chega ao fim. A conta, acaba de chegar para todos nós.

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